Um pouco mais de compaixão, por favor.

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Ao ver os olhares inquisidores e carregados de repúdio com que as pessoas envolta olhavam para os três homens maltrapilhos que discutiam entre si, eu me perguntei porque tamanho desprezo? As palavras rudes que saiam da boca dos três homens eram sim desagradáveis, ok. Mas a condição humana em que se encontravam ali, naquela noite de sexta gelada, era ainda pior. Cobertas que passavam longe de serem limpas, sapatos gastos e sem cadarços, gorros de lã desfiados na cabeça e qualquer outro tipo de trapo que pudesse os proteger do frio.

As pessoas que os olhavam enojadas na fila do transporte, em suas roupas, algumas mais sofisticadas outras também tão simples, pareciam não compreender a enorme barreira que havia entre as duas realidades ali estampadas. De um lado três homens, de vocabulário chulo, mãos trêmulas e lábios coloridos de roxo por conta do frio, sem ter para onde ir, sem lugar fixo para chamar de lar, sem café quente de aroma reconfortante saindo para esquentar o corpo do frio. Do outro, passageiros de algum trem, esperando ansiosos pelo embarque, para fugir da brisa cortante do frio de inverno, com destino certo, casa onde se abrigar, familiares para abraçar, travesseiro confortável para repousar a cabeça depois de algumas horas na estrada.

Me perguntei, quão amarga a vida pode tornar as pessoas, e a resposta estava estampada na cena diante de mim. Não há motivo para repúdio, não há motivo para olhar com pensamentos críticos os três homens que ali estavam e não se apiedar por eles, pelo contrário. Ao ver dois guardas se aproximando e pedindo para que não montassem suas camas ali, em local público e de acesso de pessoas de bem, um deles ainda suplicou: calma ai, podemos pelo menos esperar a sopa que ainda vem hoje? Um prato quente de sopa. Tantas vezes a única refeição do dia.

Três homens que como tantos outros espalhados por aí, vivem a vida em coisas únicas. Única roupa, única coberta, única comida do dia, único dia de vida. O frio vem e vem com força, não pede licença, não pergunta se tens mais uma jaqueta quente o bastante para vestir. Fere. E tantas outras vezes ainda mata. O mesmo frio que estávamos sentido ali, eles também sentiam, duas, três vezes pior. Sem ter ao menos uma esperança de mais tarde ter algo mais quente para vestir. A realidade. A vida. Torna as pessoas amargas. Torna as palavras mais ríspidas e o linguajar inapropriado.

Se fôssemos nós ali, sem recursos, sem eira nem beira, como dizem por aí, não seríamos nós também mais amargos? A resposta é sim. Seriamos. Muitas vezes não é acomodamento, ninguém quer miséria, relento e sereno sobre a cabeça desprotegida. Ninguém quer. As vezes é falta de oportunidade, realidades controversas, muitos que têm muito e poucos que tem menos do que pouco ou quase nada. Fome de ideais além da fome de comida, ausência de sonhos além da ausência de casa para morar, vontade de mendigar abraços ternos ao invés de tantas vezes mendigar migalhas e míseras moedas.

Olhar com repúdio não te faz mais instruído do que três homens moradores de rua. Olhar em vão não te faz melhor que ninguém. Mas quando teus olhos se compadecem dos menos favorecidos, quando aquele teu moletom velho do fundo do armário, resolve sair e vestir quem não tem nada para esquentar o corpo, isso sim, te faz melhor que milhares de pessoas por ai, te faz melhor que todas as pessoas enojavas paradas em uma fila de trem, te faz melhor para si mesmo. Compaixão ao invés de críticas. Amor ao próximo ao invés de violência silenciada. Olhos que agridem o outro mais do que a própria fala o faria. O mundo já está farto de pessoas ruins, seja melhor.

Seja como aquelas que trazem alento e sopa quente a um desconhecido numa noite fria de sexta. Seja como aquele que doa um cobertor a um desabrigado. Aquele que tem dois e dá ao outro um, porque o outro não tem nenhum. Seja diferente e não permita que alguém te pegue olhando distraído com o corpo cheio de roupas e o coração completamente vazio de amor.

 

t.

10.06.2016

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