Devaneios soltos e sem mistério

 

O som do riso dela ecoava na memória cada vez que o silêncio tomava conta do quarto. Foram tantos risos divididos ali, sons de gargalhadas misturadas, vidas misturadas no riso. O cheiro do perfume dele ainda inunda o travesseiro. Basta só se aproximar e sentir, que um turbilhão de memórias vem à tona. O modo como ele pousava a cabeça sobre o travesseiro com o cabelo ainda úmido, o modo como ele adormecia. Isso ainda faz falta aqui.

O sorriso dela iluminava a casa inteira, bastava ela sorrir e qualquer resquício de escuridão se enchia de luz. Até os dias mais sombrios e vazios, eram preenchidos pelo sorriso dela. Os olhos dele sempre tão ternos e doces me acariciavam a pele mesmo quando ele não a tocava. Ficavam lá, me encarando, me examinando. E em silêncio ele media com os olhos a extensão do arrepio que a presença dele causava em mim. Os cabelos dela dançando com o vento, o perfume de lavanda do condicionador tomando conta do espaço, a leveza com que o vento bagunçava seus fios, e ela despretensiosamente me bagunçava por inteiro, como folha seca ao vento. Sem saber.

A imagem dele revirando a casa inteira a procura das chaves do carro, seus braços tensos ocupando toda manga da camiseta ainda amassada. A satisfação no rosto ao encontrar as chaves debaixo da almofada azul turquesa. Isso ainda teimava em restaurar cenas de um presente que se fez passado. O cheio de café vindo da cozinha as seis da manhã, quando ela ainda vestia minha camisa branca como pijama, seus pés descalços, o cabelo preso num coque desarrumado. Coisas que são difíceis de esquecer. Até para o mais desapegado dos homens.

O que é isso? Uma bagunça de relatos? Saudades aos berros para perpetuar no vácuo? Não! Isso são apenas, duas pessoas tentando se tornar estranhos. Caminhando na contra mão de um sentimento que deveria estar morto, mas que não morreu. Teimosia. Seres humanos racionais agindo só com a razão sem dar ouvidos ao que grita o coração. Deixando de lado a emoção. Se ainda fere é porque nunca cicatrizou. Se ainda lembra é porque nunca esqueceu. Se ainda sente falta é porque ainda há muito para se viver.

O amor não vem com rótulos, não nos ensina a forma certa de manusear o sentimento, nem nos previne dos  possíveis efeitos colaterais. Talvez a saudade seja um deles. Talvez o vazio onde antes havia mais alguém, seja o mais marcante deles. Talvez nós na pressa de nos entorpecer, esqueçamos de ler a bula. E depois o que sobra é isso. Dois apaixonados tentando se tornar estranhos. Duas pessoas perdendo a fé naquilo que sentem, talvez naquilo que sentiram, quem sabe ainda naquilo que jamais deixaram de sentir. Orgulho bobo. Pedido de desculpas em débito. Divida com o coração alheio que pode ser paga, mais que nos recusamos a pagar. Por mera vaidade. Por mera distração. Por mesquinha encomia de sentimento.

Até quando? Até o dia em que memórias se tornam apenas memórias. Até o dia em que se desenterra uma cápsula do tempo no jardim e descobre que você um dia amou. Amou tanto que a vida parecia até mais colorida aos seus olhos apaixonados. E ai sente falta. Mais já é tarde demais. Não há espaço para teimosos no amor. Pegue para si de novo, o riso, o perfume, o arrepio, o coração dela, ou dele.

Pegue para si de novo, a difícil missão de fazer dar certo. Mesmo que da forma mais errada. Mesmo que pelo caminho mais difícil. Porque até mesmo nas rotas mais longas e desconhecidas, existe um atalho. Basta abrir os olhos para ver. Basta entender. Que quando se ama de verdade, se percebe detalhes que ninguém mais vê. E vale a pena lutar pelos detalhes. E ai o que você vê?

 

t.

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